Poromongûetá: 3º idioma indígena do Brasil a possuir um teclado especifico para celular!
Anaûé xe irũetá gûé!
TECLADOS INDÍGENAS: PRESERVANDO LÍNGUAS ANCESTRAIS NA ERA
DIGITAL
Hoje, quero falar sobre um tema
que me toca profundamente: a preservação das línguas indígenas no Brasil
através da tecnologia. Como antropólogo indígena da etnia Tremembé, vejo
diariamente o quanto nossas línguas ancestrais são fundamentais para nossa identidade
cultural. Através da língua nos comunicamos, escrevemos, transmitimos ideias e
sentimentos. Vamos explorar duas iniciativas inspiradoras: o teclado Nheengatu,
seguido do Kaingang desenvolvido pela Motorola, o primeiro teclado
indígena do Brasil, e o projeto Poromongûetá, que eu estou desenvolvendo
com meu primo. Ao final, discutirei o impacto desses teclados na retomada
linguística do povo Tremembé.
O PIONEIRISMO DA MOTOROLA COM O TECLADO NHEENGATU
Em 2021, a Motorola marcou
história ao lançar o suporte para línguas indígenas em seus smartphones,
tornando-se a primeira fabricante a oferecer um teclado completo para o
Nheengatu, uma língua falada por povos indígenas na Amazônia. Junto com o
Kaingang, falado em regiões do Sul e Sudeste, o Nheengatu foi incluído como
parte de uma iniciativa de inclusão digital, em parceria com a Fundação Lenovo.
Essa foi uma conquista pioneira, pois permitiu que falantes dessas línguas
usassem seus dispositivos móveis em sua língua materna, facilitando a
comunicação cotidiana e a preservação cultural.
O Nheengatu, também conhecido
como "língua geral amazônica", é uma herança dos povos Tupi e tem
sido ameaçado diante do uso do português. Com o teclado da Motorola, caracteres
especiais e acentos próprios da língua se tornaram acessíveis, incentivando o
uso digital e ajudando a revitalizar o idioma entre as novas gerações. Essa
iniciativa não só democratizou a tecnologia, mas também serviu de modelo para
projetos semelhantes ao redor do mundo, incluindo expansões para outras línguas
indígenas na Índia e no México.
O PROJETO POROMONGUETÁ: UMA INICIATIVA VOLUNTÁRIA.
Inspirado por ações como a da
Motorola, estou liderando, como idealizador, o desenvolvimento do teclado
Poromonguetá, focado na nossa língua Tremembé. Esse projeto é uma colaboração
voluntária com o programador Rick Janes Matos Dias. Rick é tremembé de Camocim/CE, por parte de pai e é estudante de Rede de Computadores e está no último semestre dos seus estudos. Ele tem dedicado seu tempo (trabalhando praticamente de madrugada, heheh) e expertise para tornar isso realidade. Juntos, eu no Amazonas trabalhando com os yanomami no momento e ele no sul do Brasil, trabalhamos para criar um
teclado que incorpore os fonemas e caracteres únicos da nossa língua ancestral.
O coração do projeto é o grupo de
estudos "Poromonguetá Nossa Língua", um espaço virtual no WhatsApp
que reúne Tremembé de diversos estados: Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e São
Paulo. Nesse grupo, discutimos gramática, vocabulário e expressões culturais,
garantindo que o teclado reflita a diversidade e a vivacidade da nossa língua. O
"Poromonguetá" é nossa língua, língua de gente, fala de humano, que é
mercado pelo prefixo poro (marcador do que é humano ou mesmo de espirito)
e mongûetá que é o verbo conversar, falar em Tremembé. Nosso projeto simboliza o esforço
para resgatar e fortalecer nosso patrimônio linguístico. Diferente de
iniciativas corporativas, esse é um trabalho de base, impulsionado pela
comunidade e sem fins lucrativos, visando empoderar os falantes a usarem a
língua no dia a dia digital.
nosso teclado poromogûetá em uso!
O Impacto na Retomada Linguística do Povo Tremembé
O desenvolvimento de teclados
como o Poromonguetá tem um impacto profundo na retomada linguística do povo
Tremembé. Nossa língua ancestral, falada há séculos nas regiões Nordeste do
Brasil, sofreu com a colonização, o deslocamento forçado e a imposição do
português, levando a uma perda gradual de falantes. Hoje, muitos Tremembé mais
jovens crescem sem conhecimento da lingua e os de meia idade sem o domínio
pleno da língua, o que ameaça nossa cosmovisão, histórias orais e rituais.
Com um teclado dedicado, como o
Poromonguetá, facilitamos a escrita e o compartilhamento de textos em Tremembé
nas redes sociais, mensagens e aplicativos. Isso incentiva o aprendizado entre
gerações: idosos podem ensinar vocábulos aos jovens via WhatsApp, e comunidades
dispersas pelos estados podem se conectar sem barreiras linguísticas. Estudos
mostram que ferramentas digitais como essa contribuem para a revitalização de
idiomas ameaçados, aumentando o engajamento e o orgulho cultural. No caso de nós,
Tremembé, isso significa uma "retomada" – não só linguística, mas
também identitária – fortalecendo nossa resistência cultural em um mundo cada
vez mais digital.
Mbo'esara Esãîã em reunião no rio Marauiá.
Iniciativas como a da Motorola pavimentaram o caminho, mostrando que a tecnologia pode ser aliada da diversidade. Agora, com o Poromonguetá, estamos levando isso para o nível comunitário, provando que ações voluntárias podem transformar realidades. Se você é Tremembé ou apoia a causa indígena, junte-se a nós no grupo ou acompanhe as atualizações!O que você acha dessa união entre tecnologia e cultura?
Deixe seu comentário abaixo. Até a próxima!
Mbo'esara Esãiã Tremembé
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Que legal né pessoal
ResponderExcluirK ûekatueté!!
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